Reflexões sobre a comunidade de beleza das redes sociais

Aviso: como as leitoras frequentes do blog sabem, não sou maquiadora, ou trabalho como maquiadora, nem fiz curso de maquiadora. Sou uma entusiasta da maquiagem, que tem como hobby comprar e colecionar produtos, brincar com eles e fazer resenhas do ponto de vista de uma usuária comum.

Estes últimos dias têm sido bastante interessantes para se observar a comunidade de beleza do Youtube e Instagram, principalmente: há todo um drama rolando devido ao lançamento da paleta Subculture, da marca Anastasia Beverly Hills. Para quem acompanha a comunidade internacional de beleza, já sabe quem é a marca, e como é bem conceituada entre maquiadores e usuários de maquiagem. Para quem não acompanha, um breve resumo: é uma marca de maquiagem americana, que vem crescendo muito nos últimos 5 anos, e que lançou diversos produtos muito desejados, como por exemplo os Glow Kits e a paleta Modern Renaissance. A paleta Modern Renaissance é tão amada e adorada que vive esgotada mesmo sendo da linha permanente, e nas lojinhas aqui no Brasil não é diferente, mesmo que o preço dela orbite nos R$300,00.

Feito o pequeno resumo, vamos a um outro resumo da situação que está causando todo um drama na comunidade internacional: o lançamento da paleta Subculture, que vem a ser a outra paleta permanente da marca, e que foi anunciada como a “irmã da Modern Renaissance” pela própria marca. A paleta tem uma proposta bastante diferente da “irmã”: a Modern Renaissance é mais quente, com possibilidade de looks mais para o dia-a-dia (mas claro que há os tons mais vermelhos que também podem proporcionar looks mais chamativos e noturnos), enquanto a Subculture tem cores quentes, frias e o que eles chamam de “pops of color”, ou seja, cores vibrantes. É uma cartela de cores mais grungy, mais editorial, digamos assim. Mas o que chama a atenção dela são alguns tons de sombras mate muito difíceis de fazer, como o azul petróleo (cor Axis), o mostarda (New Wave) e os verdes (Destiny e Untamed). Sendo ela anunciada como a complementação da Modern Renaissance, criou-se um frenesi de expectativa muito alta em torno de seu lançamento e qualidade. Foi lançada há uma ou duas semanas atrás, e foi mais ou menos nesta época que surgiram as resenhas do pessoal que recebeu a paleta da marca para testar. À princípio, só resenhas positivas, até que...

No dia 29/07, a youtuber chamada Alissa Ashley fez este vídeo que jogou uma bomba na comunidade: basicamente ela mostrou que a paleta era tão ruim, mas tão ruim que não dava para trabalhar com ela. No vídeo ela mostra que as sombras esfarelam bastante, ao ponto de uma atingir o fundo com 5 ou 6 usos, que as sombras são difíceis de esfumar, que elas oxidam (mudam de cor), que se comportam de forma inesperada. Tem partes do vídeo que varreram a internet, da Alissa rodando o pincel numa das sombras e a mesma atingindo o fundo. Seguindo a resenha dela, várias outras e outros youtubers postaram vídeos de resenhas negativas: Jeffree Star, Mariah Leonard, Xsparkage, etc. O problema é que a marca reagiu a algumas destas resenhas, especialmente a de canais “menores” como a da Alissa, com desdém: disse que a paleta era realmente um produto muito diferente, que não havia a necessidade de pegar pesado com o pincel, e que era um produto de qualidade sim, que muitos conseguiram fazer funcionar e amaram. Criou-se uma desconfiança em torno da paleta, de ela ter problemas em alguns lotes, ter sido fabricada com ingredientes mais baratos que a Modern Renaissance, etc. Enquanto tudo isso rolava, e eu acompanhava pelos canais que sigo, vi gente mudar de opinião (fazer resenha negativa, depois de ter postado resenha positiva), vi gente se atacando nos comentários (defendendo ou atacando a/o youtuber que fez a resenha, além das pessoas que concordavam ou não com a/o youtuber), pessoas escolhendo lados como se fosse uma batalha épica. Neste contexto, a grande maioria das resenhas eram extremamente superficiais e davam opiniões na base do gostei/não gostei, porque afinal de contas a grande maioria NÃO É maquiador, NÃO é químico ou trabalha na indústria farmacêutica; são pessoas que têm habilidade com pincéis e criatividade para fazerem looks que agradem outras pessoas.

Aí começaram a se pronunciar pessoas que SÃO maquiadores ou SÃO ligados à indústria cosmética, e algumas das teorias sobre a “ruindade” da paleta foram caindo por terra (como o fato de afirmarem que a fórmula da Subculture é mais barata porque contém talco e não mica, como a Modern Renaissance; isso é uma grande mentira, como argumenta, por exemplo, Stephanie Nicole e Wayne Goss em suas resenhas). Algumas teorias foram apresentadas, como por exemplo, a paleta ser uma espécie de paleta de pigmentos prensados, que portanto explicaria a quantidade de esfarelamento e a dificuldade de esfumar quando se pega muito produto, como MUITAS/OS youtubers costumam fazer. Também a questão de lotes estragados não parece ser correta: a Samantha Ravndahl contou que ela e outra menina tinham paletas do mesmo lote e opiniões totalmente diferentes sobre a mesma. Enfim, tudo isso acontecendo e a marca se limita a postar tutoriais com a paleta e emudecer em relação às críticas e teorias.

O que me levou a escrever sobre o assunto não é dar a minha opinião sobre a paleta em si, se ela presta ou não, até porque não a tenho e nem sei quando vou conseguir comprar (e planejo comprar sim): é analisar as reações das pessoas em torno do drama e colocar aqui algumas reflexões que acabaram me ocorrendo ao pensar e discutir o assunto.

Primeiro, o que me ocorre sobre todo esse drama é o seguinte pensamento: “gente, é maquiagem! Tem quem goste, tem quem odeie, mas é maquiagem! Não é motivo para insultar ninguém!”. Não entendo que um assunto como esse deva despertar o pior das pessoas e fazer tanta gente ficar irritado e virar um ser irracional! Deveria, sim, ser motivo de alegria e prazer, um refúgio do mundo cruel e assustador que vivemos em tempos de Trump e Temer.

Segundo, me ocorre também que o comportamento das pessoas beira à infantilidade ao defender marcas e youtubers, escolhendo lados, xingando e trollando quem tem opinião diferente. Se um/a youtuber gosta ou não da paleta não é culpa dela; é só a opinião dela! Se a paleta tem qualidade ruim, as pessoas têm que exigir explicações da marca, não de quem faz a resenha! Se você não concorda com a resenha, o mínimo que deve fazer é: 1) se perguntar se você confia na pessoa que fez a resenha; 2) decidir continuar seguindo ou não ela; 3) procurar outras resenhas para comparar diferentes opiniões. Isso é ser racional, não sair xingando e travando brigas homéricas por pessoas e marcas que, na boa, estão nem aí para o que você pensa ou sente; elas só querem o seu dinheiro e suas curtidas.

Terceiro, como a comunidade de influenciadores de beleza é superficial! Difícil ver vídeos com informações relevantes, sem sensacionalismo e primando pela informação e não pelos “views” e “joinhas”. A grande maioria dos vídeos é curto, com duração suficiente para dizer “oi, gostei muito da paleta, comprei quando lançou, não esqueça do joinha e vamos ao tutorial”. Confesso que eu tenho dificuldade em fazer vídeos mais elaborados, mas mesmo assim meus vídeos têm em média mais de 10 minutos, pois é muita coisa que a gente tem que falar, mesmo sendo amador. E por que as pessoas dão apenas informação superficial sobre os produtos? 1) Porque não sabem ir mais fundo no assunto, por desconhecimento; 2) vídeos longos não costumam ser assistidos até o fim; 3) o público não quer se aprofundar, na ânsia de não perder um segundo a mais para varrer as mídias sociais e dar conta de tudo. Então, como você forma uma opinião vendo 20 vídeos superficiais? Dá para realmente ter a certeza se uma paleta é o que você espera ou não, se vai valer seu suado dinheirinho, com opiniões tão vazias como “é pigmentada e esfuma bem”? As pessoas que você segue realmente te dão informações úteis ou apenas “fazem de conta” que dão?

Quarto, como tem gente que se considera mais do que realmente é! Há uma grande diferença entre pessoas como eu, que não são formados em cursos de maquiagem mas que o entusiasmo as fazem querer se aprofundar um pouco mais sobre assuntos relacionados à maquiagem, e pessoas que têm formação na área, que fizeram cursos e que trabalham na área e podem ter uma opinião mais técnica e mais elaborada... Criatividade em usar cores não significa conhecimento de técnicas, texturas, produtos... Muitas vezes a opinião da pessoa é dada em relação a sua preferência pessoal, e não em relação à qualidade do produto em si. E são estas pessoas que formam opinião, que levam multidões a derrubarem sites em lançamentos de produtos desejos... já pensaram sobre isso?


Enfim, acho que o post já está grande o suficiente para expor minhas reflexões e pensamentos sobre o ocorrido. Isto que ocorreu não é um evento isolado; acompanho vários canais de fofoca da comunidade de beleza e vira-e-mexe tem um bafão ocorrendo, nas mesmas proporções ou não. Eu não tinha me deparado com todas estas reflexões até este episódio, porque na verdade tive ajuda de amigas de uma comunidade de beleza do FB da qual faço parte (oi Maria Clara!) para debater e discutir o assunto, e pensar sobre tudo isso...

Agora, vocês me digam: estavam sabendo deste drama todo? Quais seus sentimentos e pensamentos sobre o grande comércio que virou o youtube?

Beijos!

Comentários

Acacia Hagen disse…
Nossa, nem tinha idéia desse drama todo, hehehe! Sigo poucos blogspot de make, mas do que já vi, concordo contigo, é muito achismo...
Dáfni disse…
Não é Acacia?

Beijos

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